
Chaves de automóvel: porque é que uma cópia custa o que custa
É das perguntas que mais ouvimos ao balcão: "então uma segunda chave do carro custa isso tudo?". É uma reação justa. Uma chave de casa copia-se por poucos euros em minutos, e a lógica diz que a do carro devia ser parecida. Só que a chave do automóvel deixou de ser uma chave há mais de vinte anos. Por fora parece metal e plástico; por dentro é eletrónica, e é isso que se está a pagar. Este artigo explica, com franqueza, de onde vem o preço, para que ninguém se sinta enganado quando pede um orçamento.
A chave do carro deixou de ser só metal
Desde outubro de 1998 que todos os automóveis novos vendidos na União Europeia têm de trazer imobilizador eletrónico de origem. Foi uma exigência da legislação europeia (a Diretiva 74/61/CEE e as suas revisões), pensada para travar os roubos de viaturas, e resultou: estudos citados por institutos de investigação europeus estimam que o imobilizador reduziu para cerca de metade a probabilidade de furto de um carro nos anos seguintes.
O imobilizador funciona assim: dentro da chave há um pequeno chip, o transponder, que "conversa" com a centralina do carro sempre que a chave entra na ignição. Se o código que a chave envia não bater certo com o que o carro espera, o motor simplesmente não arranca, mesmo que a parte metálica encaixe na perfeição. É por isso que já não basta cortar o metal ao feitio: sem programar o chip, a cópia abre a porta mas não põe o carro a trabalhar.
Cortar é a parte fácil. Programar é a que conta
Numa chave moderna, o custo divide-se em três coisas que muita gente não vê:
- O corte da lâmina. É a parte visível e a mais barata. Faz-se pela chave original ou, em muitos casos, pelo código do segredo da fechadura do carro.
- O componente em si. Uma chave com transponder, comando de abertura e por vezes lâmina retrátil é uma peça eletrónica, não um pedaço de latão. Já vem com um custo de fabrico muito acima de uma chave de casa.
- A programação. É aqui que está o grosso do trabalho e do preço. É preciso ligar um equipamento à tomada de diagnóstico do carro (a ficha OBD), fazer o carro reconhecer a chave nova e, muitas vezes, obter um código de segurança do próprio veículo antes de tudo isto ser possível.
Por outras palavras: paga-se sobretudo o saber e a ferramenta, não o material. É o mesmo que acontece com muitas reparações; a peça é barata, o que custa é saber pô-la a funcionar sem estragar o resto.
Porque é que os preços variam tanto de carro para carro
Dois clientes com dois carros diferentes podem ouvir dois orçamentos bem distintos, e não é capricho. Há três fatores que mexem no valor:
- Se ainda tem uma chave a funcionar ou nenhuma. Este é o que mais pesa. Ter uma chave original permite, em muitos modelos, clonar o chip de forma rápida. Não ter chave nenhuma é outro trabalho: é preciso gerar uma chave virgem e casá-la com o carro de raiz, o que costuma exigir o código de segurança do veículo e mais tempo.
- A marca e o ano do carro. Cada fabricante tem o seu sistema, e alguns são mais fechados do que outros. Marcas mais recentes ou premium protegem melhor o acesso, o que obriga a procedimentos mais demorados e a ferramenta específica.
- O tipo de chave. Uma chave simples com chip não é o mesmo que um comando com telecomando, nem que uma chave de arranque sem contacto (keyless). Quanto mais eletrónica, mais trabalho de programação.
Concessionário ou chaveiro: onde está a diferença
Ir ao concessionário é uma opção perfeitamente legítima, e às vezes é mesmo a indicada, sobretudo em carros muito recentes ou com sistemas ainda pouco acessíveis fora da marca. O que nem sempre se diz é que costuma implicar encomendar a chave, esperar dias e, em geral, um valor mais alto, porque a chave é faturada como peça da marca e programada só no concessionário.
Um chaveiro com equipamento para automóvel trabalha, na maioria dos casos, no próprio dia e por um valor mais contido, porque tem a ferramenta e faz a programação ali. A diferença não é magia: é o mesmo trabalho feito com equipamento próprio, sem passar pela cadeia de encomenda da marca. A honestidade obriga a dizer o reverso: se o seu carro for um daqueles casos em que o sistema ainda não é acessível fora da marca, dizemos-lho de frente e encaminhamos, em vez de andar a tentar.
O conselho que poupa mesmo dinheiro: a cópia preventiva
Há uma diferença enorme de preço entre duplicar e repor do zero. Enquanto ainda tem uma chave a funcionar, fazer uma segunda é relativamente simples e barato. No dia em que perde a única chave que tinha, o trabalho passa a ser gerar tudo de novo, quase sempre mais caro e mais demorado, e com o carro parado até estar resolvido.
Por isso o melhor conselho que damos é o mais aborrecido: faça a segunda chave enquanto tem duas, não quando ficar com uma. É a diferença entre um trabalho de rotina e uma urgência com o carro imobilizado à porta de casa.
O que perguntar antes de comparar orçamentos
Se está a pedir preços, três perguntas ajudam a comparar maçãs com maçãs:
- O trabalho inclui a programação completa e o carro a arrancar, ou só o corte da lâmina?
- É possível apagar do sistema uma chave perdida ou roubada, para que deixe de funcionar? Isto importa muito quando a chave não foi só esquecida.
- A chave fica reconhecida pelo carro de forma definitiva, sem surpresas em revisões futuras?
Quem responde a estas três com clareza é quem sabe o que está a fazer. Quem foge de dar um preço ao telefone e diz sempre "depende, só vendo" é para ter alguma cautela, tal como acontece nas fechaduras de casa.
Em resumo
Uma cópia da chave do carro custa mais do que uma de casa por uma razão simples: não se está a pagar metal, está-se a pagar a eletrónica que faz o carro arrancar e o trabalho de a programar. O valor sobe quando não há chave nenhuma, quando o carro é mais recente e quando a chave é mais complexa. E há uma forma real de gastar menos: fazer a segunda chave enquanto ainda tem a primeira.
Trabalhamos chaves de automóvel na loja no Centro Comercial Newark, em Matosinhos, incluindo o sistema Mercedes. Traga a chave e os documentos do carro e dizemos-lhe, com franqueza, o que dá para fazer ali e quanto custa. Loja: 223 270 636. Urgência: 919 155 649.
Fontes
- EUR-Lex: Diretiva 74/61/CEE (dispositivos de proteção contra utilização não autorizada de veículos)
- ifo Institute / CESifo: "The Engine Immobilizer: A Non-Starter for Car Thieves" (efeito do imobilizador nos furtos)
- ACP: Automóvel Club de Portugal
- DECO PROTESTE: direitos do consumidor e orçamentos de reparação
